Friday, May 06, 2016

Jogando pelas regras


No dia 17.04.2016 foi votado o processo de Impeachment da presidente do Brasil no congresso nacional: o processo segue para o senado, se instaurado, a presidente é suspensa por até 180 dias para julgamento.
Há uma verdadeira briga ideológica e política no país, tenho meu posicionamento e deixarei claro, ajuda a entender o que irei escrever e ajuda quem não quer ler artigos contra a sua ideologia (apesar de eu achar fortemente ser este justamente o problema das discussões e (des)governo nacional): eu respiro aliviado por um projeto de poder estar sendo afastado, não fico feliz do COMO estar sendo afastado.
Por mais que eu desejasse que as máscaras de um projeto de governo (que não tem diferença alguma para os que ainda estão em curso na Venezuela e na Bolívia) fossem mais escancaradas para serem definitivamente extinto este projeto na América Latina, não poderia arriscar ainda mais o meu país, o meu bem-estar e o bem-estar dos que considero, todos filhos desta nação. Não irei me alongar nesta linha de pensar, mas é um projeto onde todos nos tornamos miseráveis por um orgulho cego e que a culpa de todos os fracassos está em algo lá fora, nunca será dos próprios idealizadores deste projeto (se é que é um projeto).
A minha intensão é mostrar que as regras estão sendo seguidas e que um dos maiores erros de quem quer indiscriminadamente se manter no poder é justamente não saber utilizar das regras do jogo. O jogador mais hábil está sentado na cadeira da presidência da câmara de deputados. No jogo presidencialista, as regras estão bastantes claras e escritas em forma de leis. As leis maiores do país estão contidas na constituição, as demais são os regimentos do congresso, leis auxiliares, etc. Ler, entender e usar as leis é algo que o bom governante ou o bom político deve utilizar para governar e se manter no poder. Achar como deveria ser por sonho, convicção ideológica ou qualquer outra coisa que não esteja legitimado por lei é apenas falácia, perda de tempo de quem quer viver dentro de uma realidade fictícia ditada pelas as suas ilusões de mundo. Querer submeter o país aos seus delírios noturnos é idiotice e é justamente isto que grande parte da população insiste em querer.
Tão correto quanto afirmar que o Brasil não será solucionado por Michel Temer e Eduardo Cunha, é dizer que não há solução com o atual “plano de governo”, há muito perdido e que tem mais desculpas do que resoluções. Não, não será Michel Temer o líder a mudar todo o país das trevas econômicas e políticas no qual o PT nos colocou, mas deixar na mão de quem só olha para si é ainda mais nocivo.
Na minha opinião e pensamento, as desculpas foram fracas, os argumentos infundados, fruto de quem não entende do funcionamento das instituições nacionais e que insistem em querer viver num conto de fadas que povoam as suas mentes ao invés de usar as leis e regras. “A política é a arte do possível”, disse Otto von Bismark. A sua frase diz além do seu feito como homem. Tudo que ocorreu até ontem foi possível e estava previsto nas regras. Os passos do impeachment estão dentro das regras escritas em lei e a prova maior foram os diversos recursos ao Supremo Tribunal Federal que foram negados contra todo o processo. O STF é o guardião das leis maiores, queiram os governistas ou não! Eu mesmo não gosto das regalias e orgulhos do poder judiciário, mas eles agiram nobremente conforme as leis e deram aula de respeito as regras da constituição federal e dos nossos regimentos.
Homens hábeis, políticos inteligentes encontraram num erro fatal para a economia do país e ao mandato presidencial efetuado pelo governo de Dilma Rousseff e o utilizaram para instaurar um processo de impedimento. Este processo, por mais escuso que posso parecer, foi baseado em regras bem definidas e, para desespero de quem quer acreditar em sonhos ao invés de agir conforme o possível, é avaliado por meios políticos, pelos deputados federais e somente por eles é possível revertê-lo. Portanto, antes de afirmar que o ato é um golpe de estado, saibam que este tal “golpe” está muito bem escrito e definido na constituição federal e sua forma foi seguida à risca, inclusive com a avaliação positiva da sua forma e razão pelo STF e nada pode ser dita ao contrário. O jogo foi jogado pelas regras.
A partir deste ponto qualquer coisa que seja dita diferente da constituição federal não pode ser validada. Não numa democracia de um estado democrático de direito.
As loucuras ditas por ambos os lados é o que povoou as páginas de redes sociais, argumentos incoerentes e antagônicos surgiram de todos os lados e alguns irei comentar logo mais antes da minha conclusão:
  1. “A democracia não foi respeitada, a constituição federal não foi respeitada”. Tudo que escrevi acima é minha resposta à afirmação.
  2. “Não houve crime de responsabilidade”. Cabe à comissão instaurar e apontar o crime, cabe aos deputados (neste primeiro momento) determinar se houve crime ou não, com o voto de 2/3 é indicado o parecer como correto. Por mais que achem isso ou aquilo, não cabe a mais ninguém além dos deputados federais a decisão. Isso É democracia. Isso é a NOSSA democracia oficializada em leis e na constituição.
  3. “Respeitem os 54 milhões de votos”. O processo instaurado não altera o pleito de 2014, mas pedir para que a câmara respeite 54 milhões de votos, apenas 3 milhões de votos a mais do que o segundo colocado, num processo onde a candidata, atual presidente, MENTIU para ser eleita ENGANANDO eleitores é, no mínimo, sínico. Vi deputados que sequer tiveram votos suficientes para serem eleitos defendendo esta tese. Quantos eleitores foram enganados e levados a acreditar que estava tudo bem no país? Dá os 3 milhões além dos 51 milhões do segundo candidato? O maior motivador do processo do impeachment é justamente o mascaramento destes números, na forma de crime de responsabilidade, que levou alguns milhões de brasileiros a votar na atual presidente e a mantendo no cargo. Onde há o respeito aos eleitores? Não conta?
  4. “O processo foi conduzido por ladrões e colocará no poder um ladrão e um vice ladrão”. Afirmar que o Michel Temer e Eduardo Cunha são corruptos por serem réus num processo que não foi finalizado e julgado endossa o contra-argumento de que Lula e alguns outros são também ladrões por serem JUSTAMENTE réus num processo não finalizado (julgado). Qual a lógica de afirmar que alguém é corrupto por ser réu num processo e o outro não ser corrupto enquanto igualmente réu? Volto a mostrar-lhes as decisões baseadas nos sonhos e ideologias, os seus delírios e suspiros noturnos não podem determinar os rumos de um país, é preciso seguir regras e a habilidade de a utilizar é que determina um bom político. Neste ponto especial cabe uma ressalva: eu não votei e não gosto de nenhum destes, de ambos os lados. Com exceção de Lula, não votei em nenhum e eu ACREDITO que todos SEJAM ladrões, mas eu não sou o dono da verdade, não julgo e muito menos condeno ninguém, portanto a minha opinião tem validade de lei apenas para mim e os meus sonhos. Eu tenho consciência disso ao contrário de diversas pessoas que estão decepcionadas com o fato delas sonharem algo sozinhas e acharem que todos os outros 200 milhões de brasileiros deveriam seguir seu sonho. Deste delírio eu não sofro. E mais: entre estes ou aqueles, o MEU menos pior é o que está agora posto.

Volto a afirmar: desejava o resultado, tenho minhas dúvidas quanto aos meios. Todo este processo é positivo, ideologias opostas servem para segurar excessos de quem está no poder. Estávamos caminhando para um ponto que não seria bom para o país, opinião minha, portanto, vejo com bons olhos. Não desejava um impeachment, deveria ser muito mais honroso um pedido de renúncia em prol de novas eleições. É passar ao povo o poder de decisão. As cartas estavam a mesa, o governo mentiu para ganhar a eleição, a verdade veio à tona, a economia do país está em frangalhos, seria a hora de reavaliarmos, sem cortinas, o que estava ocorrendo e tomarmos uma decisão. Na minha opinião este passo não foi tomado porque quem está no poder é alguém arrogante com todo um projeto nefasto de poder por detrás. Não caberia um movimento como o de Alexis Tsipras na Grécia? Nessas horas, o governo “popular” não venceria um pleito votado pelo povo?
Osmar Leão, 18.04.2016
Texto publicado no blog http://pessimistas.wordpress.com


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