Friday, May 06, 2016

Política, tecnologia, informação e manipulação

Estava eu, no descanso do domingo, vendo mais alguns episódios da série “House of Cards”. A série, assim como no livro “O Príncipe” de Maquiavel, é um ensinamento das etapas do poder. Eu afirmo isso porque a série é a aplicação do livro com a adição de novos panoramas maquiavélicos atualizados. É um guia de como subir na vida da forma como os políticos mais conhecem e utilizam para se dar bem.
Como não há santos na política, segundo Maquiavel, num dos episódios, um candidato oposicionista usa e abusa do poder da tecnologia da informação contra o protagonista da série. Para deixar bastante alinhado com o mundo atual, há um “Google” disfarçado, até o ator escolhido para representar o presidente desta empresa tem semelhanças com o presidente do Google. No episódio, o candidato usa a empresa para coletar, categorizar e analisar o pensamento do eleitor norte americano. Este é o real poder de uma empresa como esta.
Pense bem, o Google sabe o que você lê nos e-mails, os sites que você se cadastra, os seus hábitos diários, os locais que você frequenta, as pessoas com quem você mais fala, a linha de pensamento dos sites que você frequentemente acessa e compartilha, etc. Absolutamente tudo! O Google te conhece melhor que sua família... O Google sabe mais sobre você do que você mesmo!
Imagine agora que eu possa fazer uma estatística dos pensamentos e comportamentos REAIS das pessoas. Sim, real, não aquele pensamento que você diz que tem quando escreve num post de Facebook, mas aquele comportamento que você tem quando acha que ninguém está vendo. Sim, o Google sabe isso, não aquilo que você quer parecer! Voltando: imagine se uma empresa puder fazer estatísticas dentro da totalidade da população que usa celulares, computadores e qualquer dispositivo para leitura de informações? Ela SABE como o eleitor pensa. Se eu sei como o eleitor pensa, eu posso dizer o que o eleitor QUER ouvir. Imagine o poder disto?
Simplificarei: imagine que você quer ser síndico do prédio onde mora. As pessoas constantemente mentem dizendo que querem coisas para o bem comum (não há nada mais falso que a convivência entre vizinhos). Mas imagine se o candidato soubesse o verdadeiro pensamento e desejo dos condôminos? Era só florear a frase e fazer todos ouvir o que querem ouvir. Você ganharia com facilidade a eleição (mas para isso era precisaria que o voto fosse secreto para que a falsidade não fosse desmascarada numa exposição pública dos seus pensamentos mais secretos).
Não é à toa que o Donald Trump esteja ganhando quase todas as primárias americanas...
Por último, pense numa situação onde eu pudesse, ao longo dos anos, moldar o seu pensamento. Você ouviria minha doutrina nas escolas, na TV, nas universidades, etc. Se, utilizando as mazelas de determinados acontecimentos, eu pudesse criar uma ideologia que tocasse as pessoas pelo seu lado mais sentimental. Fantasiado de bondade, eu iria criar um pensamento comum que seria rodeado de teorias, teses e dissertações científicas sobre o assunto. Utilizando as barbáries de um regime ditatorial ou do decorrer da história, eu me transfiguraria de vítima e fiel defensor do que é mais nobre. Se eu usar esta ideia por bastante tempo, tempo suficiente para a ideia se propagar sozinha, de forma concisa e alinhada com o comportamento e costumes das pessoas num determinado país, eu não preciso saber o que os meus eleitores pensam no íntimo. Eu plantei nas suas mentes a minha solução para o mundo. Eu enraizei no seu interior o que é o correto a ser feito de uma forma tão profunda que é difícil a percepção desta manipulação.
Eu não preciso do primeiro método mostrado no início do texto, pronto. Eu SEI como o meu eleitor pensa, SEI o que meu eleitor quer ouvir porque eu CONSTRUÍ o seu pensamento. Mesmo aqueles que se dizem contrários, no seu íntimo, há a ideia do que foi plantado, pois foi parte da sua formação por muitos anos. No fundo lutam para o mesmo pensamento, apenas achando que o farão de uma forma diferente.
Osmar Leão
Texto publicado no blog http://pessimistas.wordpress.com
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